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PULA!

DISSE-LHE: PULA!

(Tratamento de choque)

Quando professor, seja secundário ou universitário, era, e muito, procurado por alunos e alunas em busca de uma palavra, um conselho, uma ajuda (até sentimental). Muitas confidências ouvi, mesmo íntimas. Cheguei, inclusive, acompanhado de Suely, procurar alguns pais a levar-lhes a triste notícia de gravidez precoce da filha, ou, de um filho que participava da “esquadrilha da fumaça”.

Foi assim que, numa manhã, encontrando-me altamente ocupado num trabalho, quando a secretária avisa que uma senhora e uma jovem queriam falar comigo. Fui atendê-las. Ambas encontravam-se bastante angustiadas com os fatos que vinham acontecendo por razões sentimentais da jovem a namorar certo malandro. Ouvi as lamúrias da mãe, da jovem, sem contudo expressar minha opinião, entretanto, ponderando uma infeliz situação de um namoro, que via, não podia prosperar, opinei.

Choros e desespero da filha a insistir na continuidade de um amor que se antevia desastroso, mesmo porque a “vaca já fora para o brejo” – cuja revelação fez a mãe gritar de dentro da alma.

Como não cabia a mim decidir ou ditar-lhe o caminho, mas, sim, ajudar da melhor forma possível, chamando-lhe a atenção de possíveis situações com maiores sofrimentos que se avistavam como uma gravidez precoce, dificuldades financeiras, a prisão do namorado ou, então marido.

A conversação avançara por mais de hora, tornando-se enfadonha, repetitiva, fastidiosa e indigesta, mas, a missão de um educador é ir até o fim, procurando ajudar a quem lhe procura, solicitando socorro, principalmente uma jovem em formação física, mental, emocional e educacional, continuei a ouvi-las.

Vencidas todas as argumentações que lhes colocara a mãe e por mim apoiada, a filha levanta-se a dizer:

Vou me matar!

A pobre mãe queda-se nos joelhos a implorar raciocínio lógico da filha, e, que, pelo Amor de Deus, não colocasse fim à sua vida.

Levantei-me, aproximei-me da janela (terceiro andar), abri uma das partes, afastei a cortina e rispidamente disse-lhe:

Pula!

(Claro, duvidava que tentasse pular, mas, “pelo sim, pelo não”, fiquei próximo, nas condições de segurá-la)

Perplexa, talvez assustada, a jovem permaneceu sentada, enquanto a mãe chamava-me de louco, inconsequente.

Insisti, dizendo-lhe:

Vamos menina! Pula logo! Não tenho tempo a perder! PULA!!!

A menina faz menção de se levantar (Percebi que era “blefe”, não passava de encenação). A mãe lhe implora sensatez. Disse-lhe, novamente:

Vamos menina, Pula!

Agora assustada, abaixa-se, colocando o rosto entre as mãos a chorar convulsivamente, pedindo perdão à mãe que lhe abraça,

Pronto! O assunto estava resolvido. Era o final!

Fechando a janela, aguardo que ambas se recompõem do tratamento de choque que lhes apliquei.

Perdoada a filha, ambas se retiram, agradecendo minha intervenção no caso.

Ao retirarem, os demais colegas e a secretária entram assustados. Ela indaga:

Ficou louco, doutor?

Não, não fiquei louco! Sabia apenas que se não a desafiasse, ela chantagearia a mãe! É um “tratamento de choque”!

Eu hein! Tratamento de louco! Disse a secretária.

MONSENHOR JOSÉ RIBAMAR

(Um homem de Deus)

Quarta feira, o frio do Planalto Central (13 ºC) faz gelar a alma. O Templo (Paróquia de São Jorge e Santo Expedito, Diocese de Brasília) está repleto de fiéis, tomado, inclusive, nas laterais. Ali encontrava-me a convite de meu filho Rafael, ao dizer-me que eu sentiria a presença de Deus.

Dezenove horas, acontece a solene procissão de entrada do Celebrante Monsenhor José Ribamar da Igreja Siriam Ortodoxa de Antioquia. Alegre, sorridente, dá início à Santa Missa em rito oriental, não latino. Rica e repassada de simbolismos é a Liturgia. Celebrante e concelebrantes usam capas magnas (Não casulas), túnicas e estolas. Monsenhor tem ao seu lado dois padres, circundados por arcediáconos, diáconos, subdiáconos, diaconisas, monjas, consagrados e consagradas.

Cantos, deprecações e invocações tornam festivo o momento; não estou curioso, mas participativo naquela alegria contagiante, vinda do presbitério.

Após as leituras e a proclamação do Evangelho pelo Diácono, Monsenhor José Ribamar faz a Homilia sob o tema do dia: ATITUDE, oriunda do Evangelho, quando dois cegos, em Jericó, buscam o Senhor, com fé, sabendo que Ele os curaria; atitude de David que enfrenta Golias, sabe que Javé está com ele, nada pode temer; atitude de Neemias que leva o povo judeu a reerguer as portas de Jerusalém. Enquanto leva a Palavra, idosos, jovens e crianças levantam-se a beijar-lhe as mãos; afetuosamente os abraça e abençoa. No seu carisma, fala a linguagem do povo, sem teses teológicas a dificultar a compreensão do leigo; faz rir nos exemplos. Esclarece a atitude dos maus, louva a dos bons. Vez ou outra, olhando para uma pessoa, fala de sua vida e a chama, para após a Santa Missa, ir falar com ele, em particular. Atira rosas ou toalhinhas bentas. Aproximou-se de mim e uma entregou-me… Que alegria, estava a receber uma bênção especial!

Segue-se o ritual com a Consagração; momento solene de fé e grandiosidade. Belo é o cerimonial; no presbitério, estandartes, leques (com “guizos” – usado como se fossem campainhas).

Do altar, Monsenhor entrega novas profecias.

Finda a Missa, passa a receber as pessoas que chamou ou que já marcaram um encontro a sós, pessoal. Meu filho, não agendara, pede um desses momentos, há que aguardar, não importa a que horas, meia-noite? Uma hora? Duas? Ele atende até que se finde a fila. São dezenas de fiéis.

Enquanto espero, aproximo-me da simpática e educadíssima monja Irmã Maria de la Salete que, como se catequese fosse, explica-me a Doutrina da Igreja Ortodoxa Sirian de Antioquia: professa os Sete Sacramentos; viva e fervorosa é a devoção à Maria Santíssima; aceita a intercessão dos Santos – A Paróquia é dedicada a São Jorge e Santo Expedito – Não aceita a infalibilidade papal, mas o respeita; tem como Líder Espiritual, a quem segue com obediência, o Patriarca, em Damasco, seu Chefe Supremo. Apresenta-me a Consagrada jovem Scarlett, uma doce jovem.

Ainda sendo instruído pela Irmã Maria de La Salete, aguardo. Surpreendentemente, Monsenhor Ribamar deixa sua sala para vir ao Templo dar-me um abraço fraterno, “um irmão de fé, na diversidade de ritos” – diferentes, mas não separados – (Disse Jesus: “Tenho outras ovelhas que não são dese aprisco. É preciso que eu vá buscá-las”. Ao final, haverá um só rebanho e um só Pastor – João 10, 16ss – ). O encontro é rápido, mas frutífero; soubera pelo meu filho que era eu um Diácono romano. Ao despedir-se, fita meus olhos para dizer:

Irmão, venha conhecer a comunidade e nossas obras. Você é muito tentado pelo inimigo, sinal de que tens valores espirituais. Não esmoreça!

Sim, irei visitá-lo, conhecer sua comunidade, seminário, suas obras.

Quase uma hora da manhã, retiro-me de lá, com meu filho. A fila ainda é grande, ele vai atender.

Não, não me senti cansado, sim, abençoado, louvando a Deus esta Graça.

Na minha pequinês, falo da grandeza de um Santo Homem de Deus.

RADICALISMO RELIGIOSO

Filosoficamente, radicalismo é conceituado como a Doutrina que prega uso de ações revolucionárias, visando a transformação da sociedade. Em sentido estrito é o termo que se aplica à correntes políticas democráticas que surgiram ao final do Século XVIII e início do Século XIX.

Historicamente, foi o termo introduzido na Câmara dos Comuns Britânica pelo Deputado Charles James Fox, em 1797, exigindo uma reforma radical do sufrágio universal, até então reservada aos poderosos. Eram os “Radicais Ingleses”, contrários ao Partido Liberal (Whig). Foi inspirada na obra de John Stuart Mill que defendia a validade das ações que ampliassem o número de seus seguidores. Assim, inspiraram a formação de Partidos Democratas e Socialistas.

Politicamente, eram inflexíveis ao se oporem ao Liberalismo, que propõe reformas vias constitucionais.

Apesar de não serem contra o Constitucionalismo, os Radicais defendiam as reformas com lutas sociais, mesmo que desestabilizadoras da ordem constitucional.

O Radicalismo Religioso, entretanto, vem na contra-mão de um Estado Democrático de Direito que dá liberdade à existência dos mais diversos cultos e crenças.

A prática livre da religiosidade de um povo é, antes de tudo, um Direito Natural, e, deve, portanto, em todas as partes do mundo, ser executada com plena liberdade, conforme a Fé que professe o cidadão.

Tenho minha Fé cristã, moldada às Doutrinas de Jesus Cristo, conforme ensina o Magistério da Igreja Católica Apostólica Romana proposta pelo Divino Mestre. Assim, creio na Eucaristia conforme vem em São João VI: “… Eu sou o Pão Vivo descido do Céu… O pão que eu vou dar é a minha carne… Quem não comer da minha carne, não terá a vida eterna…”

Portanto, creio no Pão Eucarístico, o Corpo de Cristo graças ao Milagre da Transubstanciação. Como tal, para os cristãos católicos crentes e evangélicos, por seguirem a “boa nova”, ensinada por Jesus Cristo, deve Ele ser Amado e Respeitado, e muito mais, ser merecedor de ser preservado, e, defendido, se necessário, até com a própria vida a exemplo de Santo Estevão.

Entretanto, tal defesa ao Pão Eucarístico não dá direito a ninguém de atacar alguém que venha profana-Lo (Defender não é agredir).

Surpreso, pasmo e incrédulo li no facebook: Um padre (Sacerdote de Cristo), impondo aos fiéis que se presenciarem um infiel lançar mão da Eucaristia, o procurasse fazê-lo devolver (Correto), mas, se o tal não o fizesse de livre e espontânea vontade, o católico deveria “dar-lhe uma porrada!” – palavras de um Sacerdote!? – deixando-o inerte, retirando dele a Hóstia Santa. Se assim se portasse o fiel, não haveria pecado, portanto, atitude não confessável no Sacramento da Misericórdia (Confissão).

Meu Deus!

Reagi no ato, lembrando ao tal Padre, que Jesus assim não ensinou, pelo contrário, mandou Pedro guardar a sua espada, dizendo-lhe: “Quem com o ferro fere, com o ferro será ferido”.

Na mesma premissa, disse ao Reverendíssimo, se assim fizesse, seria o mesmo que concordar com o radicalismo do Estado Islâmico que mata, para eles, infiéis. Sim, “Mutatis Mutandis”, ou seja, mudar o que se tem que mudar, nada alterou…

Agredir em nome de Deus é, sim, Radicalismo Religioso, principalmente dentro do Templo, lugar Sagrado.

DESAFIO: “PEGAR UM BOI A UNHA”

Já contei aqui algumas de minhas peripécias quando professor rural em Mateira (Hoje Paranaiguara), Estado de Goiás, nos idos de 1966.

O fato que hoje conto aconteceu num domingo de minha primeira folga e na segunda feira seguinte. Levantei-me, pela madrugada como estava acostumando, indo ao curral, aprender a ordenhar. Depois do café da manhã, sempre servido pela dona Salustiana, mulher de Leonel, o administrador da fazenda, refugiei-me a caminhar pela estrada a rezar, posto que não tinha como ir a cidade assistir a Santa Missa. Enquanto caminhava e rezava, apreciava as belezas de Deus refletidas nas cenas bucólicas que se descortinavam à minha frente: belos pássaros, porcos do mato, veados, bicho preguiça.

Ao voltar, senti todo o calor abrasador daquele tempo sem chuva. Chamei os filhos de Leonel dispostos a nadar no caudaloso Rio Claro, afluente do Paranaíba, que faz a divisa entre Goiás e Minas Gerais. Tem uma largura aproximada de 40 metros. Até Leonel resolveu ir; a distância da casa às margens do rio era de menos de um quilômetro, razão porque uma caminhada era um pedido sadio.

Chegando a beira rio, alguns moradores da fazenda também estavam lá: jovens, meninos, meninas, muitas crianças, alguns adultos. Entrei na água e dei início à travessia, quando senti a força de sua correnteza. Era eu um jovem, como já diziam os caboclos “mocinho da cidade”; foi aí que pensei: “Eles vão ver o mocinho!” Era forte, sadio, destemido, inconsequente, e sabia nadar e remar. Sem medo, fui nadando rio abaixo, em linha diagonal, atravessando o rio, vencendo a força das águas. Do outro lado, na praia, olhei a distância que nadara desafiando sua forte corrente. Depois de algumas respiradas, exercícios respiratórios, voltei às águas para a travessia de volta, o fazendo com a mesma técnica, descendo o rio em diagonal; fui ter-me às margens iniciais, mas, já bem distante da praia da qual saíra. Beirando sua margem, onde calmas são as águas, voltei, ora nadando, ora caminhando pelas margens. De volta a praia, acabara de mostrar minha audácia, coragem e perícia.

Pergunto ao Leonel de quem era a canoa que estava amarrada a um galho de árvore, ao que ele responde ser da fazenda. Desamarrei, empurrei em direção às aguas, dando início as remadas, deixando que ela deslisasse rio abaixo. Depois de descer uns 300 metros, tentei remar de volta: Era impossível; a corrente era mais forte que minhas remadas, indo a canoa cada vez mais para longe do ponto de partida. Imediatamente, rumei para a margem, de onde voltei remando até o ponto de partida.

Foi um sucesso, principalmente entre as meninas entusiasmadas. Leonel afirma que chegou a pensar que eu não conseguiria voltar com a canoa; ela seria abandonada em algum ponto, quando eu voltaria, caminhando pelas margens e barrancos.

Confesso, estava exausto, taquipneico, enxergava “amarelado”; trêmulo e com fome. Resolvi voltar. O sol a pino indicava “meio dia”.

A caminhada até a sede foi de grande sacrifício. Almocei com gula. Deitei-me, após o cafezinho, na área externa da casa, na realidade, “desmaiei”. Ao escurecer, um banho na bica foi animador. O jantar acabou de restaurar-me as forças”

Na manhã seguinte, segunda feira, levantei-me todo dolorido, indo ao curral só para tomar um copo de leite retirado na hora, tomando um analgésico que levara na bagagem, sim, um pequeno “pronto socorro”.

Na Escola, ao fazer a chamada, muito lentamente, sofrendo cansaço, chamo:

Marizilda! Ela se levanta e diz:

Presente! Fessô, meu pai dissi qui o sinhô é muitu forti, mais, manda um desafiu: Pegá cum eli um boi a unha!

Cê é besta menina, bebeu

DESAFIO: “PEGAR UM BOI A UNHA”

Já contei aqui algumas de minhas peripécias quando professor rural em Mateira (Hoje Paranaiguara), Estado de Goiás, nos idos de 1966.

O fato que hoje conto aconteceu num domingo de minha primeira folga e na segunda feira seguinte. Levantei-me, pela madrugada como estava acostumando, indo ao curral, aprender a ordenhar. Depois do café da manhã, sempre servido pela dona Salustiana, mulher de Leonel, o administrador da fazenda, refugiei-me a caminhar pela estrada a rezar, posto que não tinha como ir a cidade assistir a Santa Missa. Enquanto caminhava e rezava, apreciava as belezas de Deus refletidas nas cenas bucólicas que se descortinavam à minha frente: belos pássaros, porcos do mato, veados, bicho preguiça.

Ao voltar, senti todo o calor abrasador daquele tempo sem chuva. Chamei os filhos de Leonel dispostos a nadar no caudaloso Rio Claro, afluente do Paranaíba, que faz a divisa entre Goiás e Minas Gerais. Tem uma largura aproximada de 40 metros. Até Leonel resolveu ir; a distância da casa às margens do rio era de menos de um quilômetro, razão porque uma caminhada era um pedido sadio.

Chegando a beira rio, alguns moradores da fazenda também estavam lá: jovens, meninos, meninas, muitas crianças, alguns adultos. Entrei na água e dei início à travessia, quando senti a força de sua correnteza. Era eu um jovem, como já diziam os caboclos “mocinho da cidade”; foi aí que pensei: “Eles vão ver o mocinho!” Era forte, sadio, destemido, inconsequente, e sabia nadar e remar. Sem medo, fui nadando rio abaixo, em linha diagonal, atravessando o rio, vencendo a força das águas. Do outro lado, na praia, olhei a distância que nadara desafiando sua forte corrente. Depois de algumas respiradas, exercícios respiratórios, voltei às águas para a travessia de volta, o fazendo com a mesma técnica, descendo o rio em diagonal; fui ter-me às margens iniciais, mas, já bem distante da praia da qual saíra. Beirando sua margem, onde calmas são as águas, voltei, ora nadando, ora caminhando pelas margens. De volta a praia, acabara de mostrar minha audácia, coragem e perícia.

Pergunto ao Leonel de quem era a canoa que estava amarrada a um galho de árvore, ao que ele responde ser da fazenda. Desamarrei, empurrei em direção às aguas, dando início as remadas, deixando que ela deslisasse rio abaixo. Depois de descer uns 300 metros, tentei remar de volta: Era impossível; a corrente era mais forte que minhas remadas, indo a canoa cada vez mais para longe do ponto de partida. Imediatamente, rumei para a margem, de onde voltei remando até o ponto de partida.

Foi um sucesso, principalmente entre as meninas entusiasmadas. Leonel afirma que chegou a pensar que eu não conseguiria voltar com a canoa; ela seria abandonada em algum ponto, quando eu voltaria, caminhando pelas margens e barrancos.

Confesso, estava exausto, taquipneico, enxergava “amarelado”; trêmulo e com fome. Resolvi voltar. O sol a pino indicava “meio dia”.

A caminhada até a sede foi de grande sacrifício. Almocei com gula. Deitei-me, após o cafezinho, na área externa da casa, na realidade, “desmaiei”. Ao escurecer, um banho na bica foi animador. O jantar acabou de restaurar-me as forças”

Na manhã seguinte, segunda feira, levantei-me todo dolorido, indo ao curral só para tomar um copo de leite retirado na hora, tomando um analgésico que levara na bagagem, sim, um pequeno “pronto socorro”.

Na Escola, ao fazer a chamada, muito lentamente, sofrendo cansaço, chamo:

Marizilda! Ela se levanta e diz:

Presente! Fessô, meu pai dissi qui o sinhô é muitu forti, mais, manda um desafiu: Pegá cum eli um boi a unha!

Cê é besta menina, bebeu?

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NOMORO NA ROÇA

NAMORO NO SERTÃO GOIANO

(Aplicando injeção)

Nos idos de 1966, fui professor rural na Fazenda Nossa Senhora do Piratininga, Município de Mateira (Hoje Paranaiguara), Estado de Goiás. Um sertão bravio.

Quantas saudades! Bem me lembro, levantava-me pela madrugada, ia ao curral e ajudava na ordenha; tomava um copo de leite, tirado na hora, adoçando com rapadura, alem de uma gotinha de creolina (diziam os caboclos que matava os vermes). Na casa, dona Salustiana servia-me o café da manhã composto de coalhada, leite quente com café, queijo fresco, bolo de fubá. Às 8 horas, pontualmente, abria a Escola (Municipal), lecionando até ao meio dia, quando ia para o almoço: arroz, feijão, carne de franco ou porco, muitas vezes peixes, ovo frito ou cozido ou omelete, queijo e cafezinho.

A tarde era toda de folga, quando ia, montado numa bela mula (castanha), visitar algumas fazendas vizinhas (Claro, onde só existiam lindas meninas) onde sempre serviam, para a “merenda”, uma cuia com melado e farinha. Muitas vezes ia pescar, nadar ou remar no caudaloso Rio Claro.

Antes do pôr do sol, o jantar. E aí, nada mais restava, era se recolher e dormir. Raramente participava de uma roda de viola e cantadores, o que também era raro acontecer.

Foi num desses passeios às fazendas vizinhas que conheci Ana Maria, jovem escultural, estonteantemente bela, além de educada, fina, alegre. A simpatia foi recíproca, daí a razão de outras visitas, até que, num fim de semana, encontrei o seu pai (Seu Genésio) doente. Era portador de “bronquite asmática”; estava muito mal e permanecia sentado à ponta da mesa a sofrer de falta de ar, respirando com muita dificuldade. Seu filho tinha ido à Farmácia, em Mateira, comprar uma injeção (receita médica) capaz de restaurar-lhe a normalidade, diziam todos que a injeção era “tiro e queda”, sarava mesmo.

Sentado sob uma frondosa árvore, perto da casa, saboreava um melado com farinha e uma fatia de queijo fresco, quando seu irmão chegou, trazendo a dita e milagrosa injeção. Ana Maria indaga se eu sabia aplicá-la, respondi afirmativamente (Os cursos de Formação de Professores Primários preparavam os mestres para todas as eventualidades que surgem nos meios rurais).

Entrei, dona Aurélia, a mãe de Ana Maria, pergunta-me o mesmo. Digo que posso, se alguma pessoa da casa não o fizer. Insistiram. Ana Maria, fazendo um “biquinho” pede para aplicar, entregando-me a caixinha da injeção e a seringa com agulha que ponho a ferver. Pego a bula e vejo a composição do remédio: “Adrenalina 5%”. Li onde indicavam os efeitos colaterais dizendo que já foram verificados óbitos. Digo:

Não aplico! Ele pode morrer!

Foi um “Deus nos acuda”, a família toda insistindo que podia aplicar, que ele já a tomara, que era receita médica, até já fora aplicada na própria farmácia.

Serrei a ampola, preparei a seringa e “pá” no músculo do homem, injetando o conteúdo bem lentamente.

De repente, seu Genésio deu um pulo da cadeira, gritando palavras incompreensíveis, e, suando por todos os poros, estava taquipneico, abre os braços e diz:

Agora estou bom! Sarei! Obrigado Professor!

Angustiado, perguntei:

E se o senhor morresse?

Lá do fundo da cozinha, ouvi uma voz masculina:

Seriam 2 defuntos!

Nunca mais voltei lá. Adeus Ana Maria, sua beleza, suas belas curvas, seus beijos doces:

Adeus goianinha!

BRINCOU COM A SORTE”

(Encontrou a morte!)

Nas semanas que se passaram, foram vistas pela cidade, uma campanha de trânsito, de âmbito local, contra acidentes, principalmente fatais. Veículos danificados no seu todo foram colocados em pontos estratégicos, e, ao lado uma faixa com dizeres: “Brincou com a sorte, encontrou a morte!”

A campanha despertou, entretanto, algumas críticas, como também apoio. Por sinal, a campanha repete a promovida há anos por Jânio Quadros quando prefeito da Cidade de São Paulo.

De minha parte, apoio a campanha, em seu todo, como apoiei a de âmbito Federal intitulada “Gente boa, também mata!”

Sim, um veículo, mesmo dirigido por gente boa, pode-se transformar em uma arma, mesmo que a intenção de seu condutor não seja matar ou ferir, mas, assumiu tais riscos quando violou a lei.

A verdade é que o trânsito está caótico em todo Território Nacional. Não há respeito nenhum. Motoristas circulam em altas velocidades em vias públicas, sejam elas nas cidades ou nas rodovias. É um desrespeito total, cada qual procurando ultrapassar pela esquerda, direita ou caminhando em zigue-zague, não dão a mínima atenção às regras básicas de segurança; considerem-se, ainda, os que não sabem dirigir, mas pensam que sabem. Assim, brincam a sorte!

Digo que toda e qualquer campanha que venha alertar, educar, ensinar o condutor de veículo, é válida, mesmo que provoquem choques e emoções.

O trânsito está infestado de motoristas inconsequentes; muitos embriagados e ou drogados, usando do excesso de velocidade com as temíveis ultrapassagens irregulares e perigosas; muito ainda usando dos celulares que provocam desvio da atenção ao volante, pouco se importando que pessoas idosas, senhoras grávidas, crianças estão a atravessar as vias. Ainda, não respeitam semáforos, faixas de pedestres e sinais de segurança.

Muitos motoristas circulam ouvindo músicas, mesmo em altas velocidades, chegando ao absurdo de mudar de estações, desviando a atenção das vias de rolamento.

Dez (10%) por cento dos óbitos, em todo o Brasil, acontece graças ao trânsito. Quantos ficam severamente mutilados e por toda a vida?

Quanto custa à Nação, às famílias pelas despesas no atendimento às vítimas? Quanto custa, em termos do PIB as despesas com funerais, hospitais, médicos, seguros, reparações? Pior, entretanto, as vidas que se foram, provocando dores, lágrimas, sofrimentos e saudades.” Apoiei a campanha “Gente boa, também mata!” Um programa de alto choque, lançado nas redes de TVs abertas, jornais, sites ministeriais, organizações governamentais e não governamentais, facebook. As opiniões se dividiram em contra ou a favor.

Digo e repito que toda campanha é válida e como está, lançada em Anápolis. Ela precisa ser encampada e estendida por todos os meios de comunicação sócia. Ela choca, sim, mas adverte para que se evite brincar com a sorte, ou encontrará a morte.

O respeito às leis, às regras básicas de circulação e segurança no trânsito levam à PAZ NO TRÂNSITO.

Quem brinca com a sorte, encontra a morte!”

PROJETO RONDON

 

PROJETO RONDON

O Projeto Rondon foi implantado em 1967 (11 de julho) quando o Professor Omir Fontoura, inspirado nas ideais do Professor Wilson Cohen levou para RONDONIA, 30 acadêmicos da UEG, UFF e PUC/RJ, objetivando estudarem a busca de soluções que contribuíssem para o desenvolvimento sustentável de comunidades carentes, ampliando o bem-estar da população.

Tem como prioridade, desenvolver ações que tragam benfeitorias permanentes às comunidades, principalmente o social. Procura consolidar no universitário brasileiro o sentido de responsabilidade social e coletiva que estimulem a cidadania, o sentido de interesses nacionais, contribuindo para sua formação acadêmica, proporcionando-lhe conhecer “in loco” a realidade brasileira.

Ao regressar de Rondônia, os estudantes entusiasmados pelo sucesso dos diversos trabalhos propuseram ao Governo Federal a criação do Projeto Rondon (Em homenagem ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. Assim, em 28 de junho de 1968 foi editado o Decreto 62.927 que o criou, subordinando-o ao Ministério do Interior.

Em 15.12.1975 era criada a Fundação Projeto Rondon. Mas, em janeiro de 1989 foi extinto, levando a UNE, em novembro de 2003, procurar a Presidência da República, buscando viabilizar seu relançamento, o que veio acontecer em março de 2004, vinculando-o a diversos Ministérios como o da Defesa, Educação, Saúde, e, ainda Secretaria Geral da Presidência da República que definira as suas diretrizes e orientações que foram consolidadas em 20.08.2004.

Quando, ainda acadêmico de direito, procurei, por incentivo de colegas de magistério, engajar-me em uma de suas realizações. Muitos eram os interessados, mas, mesmo assim fiz a inscrição, tornando-me um dos escolhidos. Havia necessidade de treinamentos, todos em Goiânia, nas dependências da Universidade Federal. Participei com força e entusiasmo dessas reuniões, ensinamentos, trabalhos e preparos.

Nas férias de julho (1972), agora já Estagiário de Direito, parti, em ônibus, com um grupo de 30 universitários para o chamado “Bico do Papagaio”, em Goiás, destacado para trabalhar com a Equipe de Serviços Sociais nas cidades de Xambioá e São Geraldo do Pará, divididas entre si pelo Rio Araguaia, e ainda em Ananás, Goiás (Era uma época efervescente na região, graças à presença dos “Guerrilheiros do Araguaia”, razão porque os militares destacaram uma Equipe de Segurança a acompanhar os universitários; temiam fossem os jovens atacados.

(Na cidade de Araguaína – então Goiás, hoje Tocantins – minha Equipe (Sim, eu a chefiava) teria que aguardar a saída do ônibus para Xambioá. Aproveitei e fui visitar Suely, já minha noiva, que ali passava suas férias escolares. Passeando com ela e algumas de suas amigas… Bati o carro do futuros sogro!)

As instruções diziam que chegando à cidade de trabalho, procurassem o Prefeito, Autoridades, Colégios, Funcionários, Chefes de repartições. O que foi feito, inclusive às Bases Militares que forneceram os soldados para a segurança do grupo.

Nestes eventos, as diversas Equipes trabalham, sim, 12 a 13 horas, dentro das capacidades profissionais de cada uma. No caso da minha Equipe era educacional, orientações jurídicas e documentais. Vi e aprendi mais do que fui levar: A simplicidade de um povo humilde, carente, resignado, religioso, tímido, mas, antes de tudo, confiantes na ajuda que estavam recebendo.

Vi, com tristeza e melancolia uma mãe recusar atendimento ao filho doente, temerosa de ser levado para a cidade e hospitalizada quando disse que o menino iria sarar, eis que já lhe servira um “Chá de pinto” – O que é isso? – Chá de um pintainho moído no pilão, cuja “massa” era fervida em água. Se a criança morresse a enterraria debaixo de uma gameleira à porta da casa. Em um casamento, os convidados compram bebidas e salgados, cujo resultado obtido é entregue aos noivos. Vi, doentes se recusarem a tratamentos, acreditando unicamente nos benzedores ali existentes… Fossas acéticas construídas a poucos metros da cisterna. Disse um dos membros que já acostumara com as refeições com “gordurinhas” fecais.

Acredita que 50 anos passados, tudo mudou? Engano!